Último lançamento disponivel em capa dura
SINOPSE
Este livro investiga a Quimbanda a partir de suas contradições, de seus fundamentos e das feridas históricas que atravessaram sua formação no Brasil. A obra parte da experiência humana diante do desejo, da culpa, do medo, da violência, da sexualidade, da morte e da necessidade de sobreviver. Nesse território, Exu e Pombagira aparecem como inteligências espirituais ligadas à vida concreta, capazes de expor aquilo que a moral pública costuma esconder sob discursos de pureza.
Ao longo dos capítulos, a Quimbanda é examinada em suas dimensões filosófica, ritualística e psíquica. A incorporação é tratada como experiência do corpo, da consciência e do inconsciente, enquanto o mito de Fausto, o absurdo, o niilismo, a metamorfose e a condição anticósmica do homem ajudam a pensar a relação entre espírito, vontade e transformação.
Belzebu atravessa essa investigação como Maioral e princípio de soberania, ruptura e enfrentamento da ordem que condenou deuses, mortos e práticas dos povos dominados. O diabolismo brasileiro surge como resposta consciente à antiga acusação cristã: aquilo que serviu para justificar catequese, escravização, repressão e extermínio é retomado como memória da resistência de quem se recusou a desaparecer.
A obra recua à colonização para compreender como povos africanos de diferentes nações foram arrancados de suas terras e forçados a reconstruir seus mundos no Brasil. Ao lado deles estavam os povos originários, reduzidos pela linguagem colonial a uma categoria única, apesar de possuírem línguas, cosmologias, sistemas políticos e relações próprias com a terra, os mortos e as forças invisíveis. Seus curadores foram chamados de feiticeiros, seus espíritos foram associados ao demônio e seus territórios, tomados em nome da civilização.
Essa formação também recebeu a presença de curandeiras, parteiras, prostitutas, degredados, pobres e mulheres perseguidas pelo cristianismo oficial. O encontro entre essas experiências ocorreu em engenhos, aldeamentos, quilombos, portos, ruas, cortiços, cemitérios e casas pobres. A cultura religiosa brasileira nasceu entre violência, adaptação, conflito, perda e sobrevivência.
As Pretas Velhas ocupam lugar decisivo nessa memória. Suas rezas e mandingas aparecem como práticas de cuidado criadas onde faltavam medicina, proteção jurídica, estabilidade e reconhecimento. Sem apagar sua raiz negra, o livro acolhe também a dor das mulheres nativas, das prostitutas envelhecidas, das perseguidas pela Igreja e de tantas vidas empurradas para o fundo da ordem social.
Atravessando a abolição e o início da República, a obra mostra como a liberdade jurídica foi acompanhada por novos mecanismos de vigilância. A polícia ocupou terreiros, apreendeu objetos sagrados, perseguiu curadores e tratou práticas negras como crime, fraude ou ameaça à ordem. O antigo demônio teológico reapareceu na linguagem da higiene, da medicina, da criminologia e da modernização urbana.
É nesse cenário que a macumba perseguida, os cultos aos mortos, as tradições de incorporação e as entidades ligadas às ruas adquirem novas formas. Exus e Pombagiras tornam-se centros de um campo religioso marcado pela rejeição social e pela busca de autonomia. A Quimbanda moderna nasce desse processo plural, reunindo permanências africanas, presenças originárias, magia popular, catolicismo transformado, espiritismo, experiências urbanas e formulações sacerdotais contemporâneas.
Ao final, a Quimbanda é apresentada como tradição viva, capaz de reconhecer suas transformações sem falsificar o passado. Sua força está na consciência com que carrega seus mortos, seus símbolos e suas responsabilidades. A chama que atravessa estas páginas pertence aos perseguidos, aos que conservaram seus fundamentos e aos que ainda hoje se recusam a pedir desculpas por existir.
Outras Obras do Autor
Não se trata apenas de um simples compêndio de mandingas ou feitiçarias, mas de um
testemunho vivo da força ancestral que atravessa a Quimbanda Brasileira.
Aqui, o leitor encontrará registros raros: bruxedos, mandingas, orações e simpatias que
carregam em si o peso do perigo e da transgressão. Este prelúdio é mais do que um livro; é
um relicário de segredos preservados pela nossa linhagem, revelados com exclusividade,
sem máscaras ou artifícios.
Tal como a célebre obra “Capa Preta de São Cipriano”, este livro não pretende ser manual
de prática, mas registro histórico, testemunho escrito daquilo que muitos apenas sussurram.
Contudo, que fique claro: cada palavra aqui gravada guarda um veneno oculto e não deve ser tratada com leviandade.
Este livro nasce de uma constatação simples e incômoda: o mundo não esquece.
Aquilo que os homens fizeram — Com sangue, com medo, com desejo ou com violência — permanece nos lugares por onde passam. A terra, silenciosa, acumula a força ancestral que ali foi deixada.
Terras de Quimbanda não é um compêndio místico nem uma tentativa de simplificar o conhecimento ancestral. É apenas um Fragmento, de uma obra maior. Tal como o Livro ‘’ Quimbanda, Mandingas orações e Simpatia’’ esta obra é um Prelúdio do Livro
‘’ Quimbanda Orações e Bruxarias’’ Um livro escrito a partir da experiência de que o chão, quando pisado repetidas vezes por vidas humanas, deixa de ser neutro. Ele se torna espesso. Denso. Carregado de consequências.
A Quimbanda compreende isso sem precisar justificar. Não atribui à terra uma sacralidade abstrata, nem a reduz a um símbolo. Trata-a como aquilo que ela é: um lugar onde os acontecimentos permanecem mesmo depois de encerrados. Onde a morte não dissolve tudo.
Este livro percorre cemitérios, ruas, estradas, prédios públicos, matas fechadas, praias, mangues, portos e espaços humanos marcados pela passagem e pelo tempo.
O livro não ensina rituais. Não entrega fórmulas. Ele exige discernimento. Exige que o leitor compreenda que toda prática espiritual é, antes de tudo, um encontro com consequências acumuladas – Um conhecimento profundo e direto para mestres e sacerdotes(as) experientes, e claro, também para o público curioso.
Escrito por Tata Nzambi Belzebu (Tata Gerson), sacerdote da Quimbanda de Belzebu – Reino de Exus e Pombogiras, Escritor, Contista, Poeta, Litúrgico. Este livro não busca legitimação externa nem diálogo conciliador. Ele se dirige a quem entende que a magia não começa no ritual, mas no reconhecimento do peso que os lugares carregam.
Terras de Quimbanda é um livro sobre permanência.
Sobre aquilo que fica quando tudo parece ter passado.
E sobre o erro comum de acreditar que o chão é apenas chão.